CARTA
DE PETRÓPOLIS
Os abaixo assinados, reunidos ao longo dos dias 23 e 24 de novembro
de 2002, na Cidade Imperial de Petrópolis, atendendo a um chamamento
de união e de abertura dos espíritos em prol da Causa
Monárquica, com base em práticas de oficina de trabalho,
procedemos a um exame desapaixonado do que vem ocorrendo com o Movimento
Monarquista (MM) desde o plebiscito de 1993, projetando, ao mesmo tempo,
uma estimulante visão de futuro que seja nossa estrela-guia.
Nossa reunião teve sua origem nas facilidades e baixo custo
permitidos pelo uso da internet na comunicação interpessoal.
O Encontro de Petrópolis foi aberto a todos que quises-sem participar
sem nenhum tipo de discriminação. Não foram distribuídos
convites formais, mas foram recebidos de braços abertos todos
os que se dispuseram a comparecer. A ausência dos príncipes
foi a condição natural para permitir uma discussão
mais à vontade do tipo brain-storming. E também para
que reavaliássemos nossa posição face aos mesmos.
Cobrar apenas dos príncipes brasileiros o que podem fazer pela
Causa nos pareceu cômodo demais de nossa parte. Centramos nossa
atenção na contribuição que podemos lhes
dar e também à Causa para que nosso sonho se torne realidade
num horizonte de 15 anos. Em momento algum, foi posta em dúvida
a fidelidade dos presentes ao Brasil, à Casa de Bragança,
a ser preservada, e ao importante papel dos príncipes.
A análise retrospectiva do que ocorreu desde 1993 não
foi nada tranquilizadora. Houve consenso sobre a baixa voltagem com
que o Movimento Monarquista vem atuando. A luz vermelha acendeu quando
tomamos conhecimento do pedido de afastamento de um monarquis-ta histórico
da presidência de uma tradicional agremiação monarquista
localizada na cidade do Rio de Janeiro. Constatamos que esse sentimento
de jogar a toalha, de desistir, seguido de atitudes nessa direção,
vem crescendo entre nós. Por sua vez, nenhuma causa vai em frente
se não houver entusiasmo e confiança no futuro. Precisamos,
sem perda de tempo, crescer e não encolher.
A principal deficiência observada foi a ausência de um
planejamento estratégico acom-panhado de um monitoramento sistemático
das metas estabelecidas. Se existem metas já estabelecidas para
serem atingidas, certamente não satisfazem à condição
de metas SMART, ou seja, eSpecíficas (e eScritas), Mensuráveis,
Alcançáveis, Relevantes e Temporais. Sem satisfazerem
a essas condições não passam de declaração
de boas intenções, a matéria-prima que pavimenta
o caminho para o inferno. Vale ressaltar o caráter temporal
da meta. Ela tem que ter data para acontecer. Daí mencionarmos
um período de 15 anos como tempo hábil para restaurar
a monarquia no Brasil. A liderança do MM precisa dotá-lo
de uma visão compartilhada e apoiada por todos, capaz de ser
abrangente e detalhada, positiva e inspiradora e alavancada por instrumentos
de ação prática.
Buscamos balizar nossas conclusões e propostas levando em conta
nossos pontos fortes e fracos, as oportunidades existentes e as ameaças
que nos rondam, internas e externas. Dentro desta linha de pensamento
e dinâmica de trabalho, chegamos a um consenso em torno dos seguintes
pontos:
- unir todos os monarquistas sob a bandeira de uma frente ampla;
- traçar um plano estratégico e estabelecer uma poderosa
visão de futuro;
- ter claro que a legitimidade também deve estar a serviço
da Causa;
- tratar a educação do futuro monarca como assunto de
Estado;
- separar, no âmbito do MM, Chefia de Governo da Chefia de Estado
e
- dotar o MM, com base numa proposta criativa, de autonomia financeira.
Dedicamos muita atenção ao último item referente à autonomia
financeira do MM por ser ele o divisor de águas entre uma atuação
amadora e outra, como precisa e deve ser, de cunho profissional. A
trajetória do PT, que soube inclusive se estruturar financeiramente,
bem demons-tra como uma organização política pode
chegar ao poder num período de tempo relativamente curto. Existem
formas e modos éticos e lícitos de angariar recursos
financeiros para o MM dando em troca produtos e serviços úteis
e legítimos a todos que contribuírem para com a Causa.
É fundamental que o futuro monarca, integrante da linha legitimista,
receba uma educação a ser tratada como assunto de Estado
e não meramente como assunto exclusivo da Família Imperial.
Esta é a única maneira de envolver o coração
e a mente de cada brasileiro nesse processo. Caberia a um Conselho
Monárquico, formado por representantes dos diversos setores
da sociedade brasileira, auxiliar a educação e o preparo
do futuro monarca em consonância com a Família Imperial.
As Instruções do Marquês de Itanhaém, anexas
a esta carta, aos preceptores de Dom Pedro II ainda são atuais – mais
de século e meio depois! – para dar rumo ao futuro Conselho,
em especial o seu artigo 4, cujo espírito de conciliação
bem poderia nos servir, aos príncipes e a nós, para retomar
o MM em novas bases, onde prevaleça a união. Se derrotar
os planos do inimigo e impedir a reunião de suas forças
são, nessa ordem, a forma mais refinada da estratégia
político-militar, essas práticas seriam devastadoras
se prevalecessem entre nós. Garantiriam, de antemão,
nosso insucesso.
Nenhum brasileiro monarquista está lutando para colocar sua
própria família no trono. Esta mesma prova de desprendimento
deve ser dada por todos os príncipes para que a legitimidade
seja posta a serviço da Causa. E não o inverso. A ordem
desses fatores altera o produto e terá forte influência
na maior ou menor velocidade com que vamos atingir a meta maior da
restauração – nossa missão. Ou mesmo, se
vamos atingí-la algum dia antes que a república esteja
definitivamente consolidada. O tempo urge, ruge e trabalha contra nós.
Não se trata de pedir renúncias, mas de um firme compromisso
em torno de príncipes mais jovens cuja idade permita pôr
em prática o que está sendo proposto. Isso nada mais é do
que fazer valer nossa tradição histórica levando
em conta os novos tempos de que o Brasil tanto necessita para restaurar
sua auto-estima, dignidade e honra. O desprendimento da princesa Isabel
levou-a a afirmar: “Mil tronos houvera, mil tronos perderia para
libertar uma raça da escravidão.” O exemplo de
prioridades corretas nos vem de Dom Pedro II que, nos Conselhos à Regente,
grafava Brasileiro com B maiúsculo e imperador com i minúsculo.
Disse também ao Barão do Rio Branco em dúvida,
que continuasse a servir o País como diplomata, pois o Brasil
vinha em primeiro lugar, mesmo sob regime republicano. Ambos deram
provas cabais de seu entranhado amor pelo Brasil, ainda que o preço
fosse o trono. Agora, o desprendimento pessoal tem um final feliz:
a restauração do trono. É preciso que os legítimos
sucessores de Dom Pedro II façam um profundo exame de consciência
e abram caminho em direção a quem esteja mais
dotado na linha sucessória para tornar o sonho realidade nestes
tempos conturbados e velozes. Saber adaptar-se é imperioso no
processo de sobrevivência bem sucedida.
É importante que mais de um príncipe – um príncipe
e uma princesa pelo menos – fosse preparado para exercer a Chefia
de Estado. A existência uma alternativa faz parte de um plano
bem feito. Psicologicamente, é extremamente importante que esses
príncipes saibam, desde já, que têm uma missão
maior a realizar na vida. Um príncipe herdeiro que vai lutar
pelo trono nas horas vagas de suas atividades profissionais dificilmente
chegará a bom termo. Mas, para tanto, é preciso vontade
política, ampla aceitação pela Nação
da educação a lhe ser ministrada e um mínimo de
tranquilidade financeira para seu próprio sustento. Temos que
fazer ver à Nação Brasileira que a tecnologia
monárquica é imbatível quando se trata de formar
um Chefe de Estado. Seu grau de isenção e de equilíbrio
jamais será igualado por um chefe de estado republicano sempre
dependente, quando não refém, de favores de grupos econômicos
e de partidos políticos para chegar e se manter no poder. Cabe
aos monarquistas e aos príncipes trabalhar arduamente para que
o povo brasileiro perceba a importância de ter um aliado fiel
e permanente que o defenda contra interesses e políticos menores.
A modernidade da monarquia brasileira durante o século XIX
salta aos olhos quando comparada aos dias de hoje. Quando o presidente
eleito fala em restabelecer audiências popu-lares, nos vem à mente
o que ocorria, todo sábado, nos jardins do Paço Imperial
de São Cristó-vão, de 17 às 19 horas, em
que Dom Pedro II recebia a todos, sem qualquer distinção
e sem marcar audiência prévia. Quando nos entusiasmamos
com a defesa da ecologia, nos lembramos dos 17 anos de replantio da
floresta da Tijuca ocorrido sob o Segundo Reinado. A estabilidade claudicante
da moeda conseguida nos últimos 8 anos nos faz lembrar que a
inflação durante os quase cinquenta anos do Segundo Reinado
foi em média de 1,5% ao ano. Este percentual irrisório é prova
cabal da plena responsabilidade fiscal vigente naquela época,
ou seja, do respeito ao dinheiro público e ao poder aquisitivo
dos menos favorecidos. A comemoração de uma transição
pacífica da faixa presidencial também nos remete aos
vários gabinetes de Pedro II, que se sucederam ordeiramente,
além do exemplo comovente da abdicação de Pedro
I. A liberdade de imprensa e de pensamento, tão comemorada hoje,
era moeda corrente durante todo o Segundo Reinado. A proposta, aparentemente
moderna, de controle externo do judiciário com a finalidade
de coibir os abusos de juízes corruptos já constava da
constituição imperial. O Imperador, ouvido o Conselho
de Estado, podia suspender de função um juiz e deixá-lo à disposição
para julgamento futuro sem privá-lo do direito de defesa. A
criação do Ministério da Defesa ocupado por um
civil, que nos é apresentado como um grande avanço, mal
esconde o fato histórico de que os Ministérios da Guerra
e da Marinha eram, durante o Segundo Reinado, normalmente ocupados
por civis ciosos de que os militares tinham que estar sob o firme comando
do poder civil.
Dói muito rever esse mesmo filme com mais de cem anos de atraso
e lembrar que o PIB acumulado caiu quase 30% nos dez primeiros anos
da república. Quando se cai de um patamar de 100 para 70, é preciso
crescer quase 50% para voltar a 100. A república, como sempre,
marcando passo. Ou a ré-pública, como já disse
há muito Dom Pedro Henrique, também na economia. A questão
tão atual de dar acesso ao negro à plena cidadania nos
remete ao fato de que 80% da população de origem africana
já estava livre quando foi assinada a Lei Áurea e que
o Gabinete Ouro Preto, o último do Império, tinha um
plano para distribuir terras aos libertos ao longo dos rios e estradas,
que a república engavetou por muitas décadas. O tratamento
dado à questão servil denotava o dedo de profissionais,
que buscaram resolver o problema paulatinamente, sem mergulhar o país
numa guerra civil sangrenta como aconteceu nos EUA. A libertação
dos escravos e sua socialização, bem como o estímulo às
muitas alforrias, foram bandeiras perenes de nossos dois Imperadores
e de nossa Princesa Isabel. Ela que dançou em bailes no Paço
Imperial com André Rebouças, engenheiro negro cujos estudos
foram financiados por Pedro II com recursos próprios. A própria
fome, justamente denunciada pelo presidente eleito, nunca foi um problema
realmente sério durante o Império. Basta observar o aspecto
físico do povo nas gravuras de Rugendas, de Debret e nas fotografias
que registram diversas cenas da vida do Segundo Reinado.
Como se pode constatar, foi um imenso esforço para nos reaproximar
do patamar em que nos encontrávamos há mais de um século.
A nós, monarquistas, nos enche de orgulho saber que a herança
institucional do Império foi tão comprometida com a defesa
do interesse público que mais de cem anos depois ainda se revela
atual. Estes fatos históricos comprovam o que foi dito, em setembro
deste ano, em Natal-RN, pelo Prof. Carlos Lessa, reitor da UFRJ, quando
afirmou que o brasileiro não tinha um problema de auto-estima
durante o século XIX, tão agudo hoje sob a república,
em que a qualidade e a probidade dos homens públicos são
diariamente questionadas pela imprensa. Nós, monarquistas, nos
orgulhamos também da modernidade e da atualidade das monarquias
constitucionais existentes no mundo. Quando arrolamos indicadores sociais,
culturais, econômicos, ambientais, de estabilidade institucional
e outros, verificamos que os países que são monarquias
estão sempre na ponta. Embora muitos desconheçam, foi
sob monarquias constitucionais que os partidos socialistas e trabalhistas
mais conseguiram fazer avançar e implantar as profundas reformas
sociais previstas em seus programas. Suécia e Espanha são
dois bons exemplos disso. Dentre os 25 países mais democráticos
e ricos do mundo, 18 são monarquias. Recentemente, dois intelectuais
ingleses não-monarquistas resolveram fazer uma lista dos cinco
países que ofereciam as melhores condições de
exercício pleno da cidadania com excepcional qualidade de vida
e tiveram que reconhecer a contragosto que todos eram monarquias constitucionais.
Mas não podemos jamais adotar a atitude cega de Luis XIV que
concentrou a nobreza no Palácio de Versalhes em funções
honoríficas inúteis, eliminando a correia de transmissão
exercida por ela entre o povo e o monarca, que acabou isolando a corte
do povo, desembocan-do na fratricida Revolução Francesa.
E muito menos ter a postura de um pretendente ao trono francês
que se recusou a reinar com as cores azul, branco e vermelha, insistindo
na volta do branco e do dourado para que assumisse o trono. Estes foram
dinastas com vocação para o suicídio histórico,
a última coisa de que precisamos. Conduzir o MM brasileiro dentro
da perspectiva de que existe um grupo de iluminados detentores da verdade
nos aproximaria de uma visão excludente que durante décadas
dominou o Comitê Central do Partido Comunista da ex-URSS. Deu
no que deu. Conversar e negociar sempre foi a linguagem dos dinastas
esclarecidos. Cabe a nós, manter essa tradição
civilizada e civilizadora.
Além do mais, a nobreza brasileira nunca foi de sangue. Os
títulos com grandeza reco-nheciam méritos. Eram vitalícios,
mas não hereditários. A cada geração, essa
nobreza tinha que se reinventar para reconquistar seus títulos.
Tinha que se manter alerta e disposta a lutar pelo bem da Nação
Brasileira para merecê-los. Havia um quê de competição
muito saudável pelo bem da Pátria, que renovava o círculo
de pessoas que cercava o monarca. A única exceção
era a Família Imperial. Caso contrário, descaracterizaria
a monarquia ao ter uma nova família no trono a cada reinado
e uma luta pelo poder profundamente desestabilizadora das instituições
nacionais.
Tudo isso nos enche de responsabilidade. Existe muito trabalho a ser
feito. O equacionamento financeiro do MM precisa acontecer com a devida
brevidade. Não há mais espaço para amadorismos
de qualquer espécie. Temos que avançar em bases profissionais
para obter êxito. Nosso sucesso vai depender de nossa união
e do comprometimento de cada um de nós e dos príncipes
com a Causa.
Aproveitamos o ensejo para agradecer a todos aqueles que mantêm
viva a chama da luta pela monarquia – ontem, hoje e amanhã.
Registramos nosso agradecimento especial ao Deputado Cunha Bueno pelas
vitórias que não podem ser esquecidas: a derrubada da
Cláusula Pétrea, que nos mantém na luta, e a elaboração
do Projeto de Constituição Monárquica, trabalho
que se mantém atual até hoje pela objetividade e clarividência.
Ressaltamos ainda sua combati-vidade, habilidade política e
tenacidade patriótica na convocação do Plebiscito
de 1993, pelo que merece a gratidão e o reconhecimento dos monarquistas
e patriotas em geral.
Convidamos os homens e as mulheres de boa vontade entre nós
para estarem pre-sentes ao nosso próximo encontro, em Petrópolis,
pelo resgate de nossa verdadeira cidadania e em prol de uma causa realmente
nobre – o Brasil.
Petrópolis, 2 de dezembro de 2002
Gastão Reis Rodrigues Pereira
Alan Assumpção Morgan
Roberto Mourão Figueiredo Silva
Roberto R. M. Nobre Machado
Luiz Costa de Lucca Silva
Bruno Hellmuth
Laerte Lucas Zanetti
Mário de Freitas Esteves
Gumercindo Rocha Dorea
ANEXO
As monarquias planejam seus Chefes de Estado
A EDUCAÇÃO DE DOM PEDRO II
Todos sabem que a vida do Imperador Dom Pedro II, deixada de lado
qualquer consideração favorável ou desfavorável à Monarquia,
foi marcada pelos bons exemplos, a ponto de afirmar-se ter sido ele "o
sucessor de Marco Aurélio". O que poucos sabem é que
Dom Pedro tornou-se órfão com poucos anos de vida, sendo
criado por tutores designados pela Assembléia brasileira - José Bonifácio
de Andrada e Silva e pelo Marquês de Itanhaém -, os quais
imprimiram ao jovem príncipe a melhor educação
humanista possível de ser ministrada na época, o início
do Século XIX. Coube ao segundo dos tutores, Manoel Inácio
de Andrade Souto Maior Pinto Coelho, fixar em "Instrucções" os
princípios a observar na educação do príncipe,
o que ele fez a 2 de dezembro de 1838, redigindo um texto ainda hoje
um modelo a observar para quantos desejam cercar a formação
dos jovens dos cuidados que asseguram a maturidade e seu perfeito desenvolvimento.
Resumindo as "Instrucções" do Marquês
de Itanhaém, e modernizando a grafia do Português da época,
eis as recomendações que a História prova terem
sido observadas à risca, porque a vida de Dom Pedro II foi a
própria comprovação de que aprendeu as lições.
Deputado Cunha Bueno
"Instruções para serem observadas pelos Mestres
do Imperador na Educação Literária e Moral do
Mesmo Augusto Senhor. ".
Artigo 1.
Conhece-te a ti mesmo. Esta máxima... servirá de base
ao sistema de educação do Imperador, e uma base da qual
os Mestres deverão tirar precisamente todos os corolários,
que formem um corpo completo de doutrinas, cujo estudo possa dar ao
Imperador idéias exatas de todas as coisas, a fim de que Ele,
discernindo sempre do falso o verdadeiro, venha em último resultado
a compreender bem o que é a dignidade da espécie humana,
ante a qual o Monarca é sempre homem, sem diferença natural
de qualquer outro indivíduo humano, posto que sua categoria
civil o eleve acima de todas as condições sociais.
Artigo 2.
Em seguimento, os Mestres, apresentando ao Seu Augusto Discípulo
este planeta que se chama terra, onde nasce, vive e morre o homem,
lhe irão indicando ao mesmo tempo as relações
que existem entre a humanidade e a natureza em geral, para que o Imperador,
conhecendo perfeitamente a força da natureza social, venha a
sentir, sem o querer mesmo, aquela necessidade absoluta de ser um Monarca
bom, sábio e justo, fazendo-se garbo de ser o amigo fiel dos
Representantes da Nação e o companheiro de todas as influências
e homens de bem do Pais.
Artigo 3. Farão igualmente os Mestres ver ao Imperador que
a tirania, a violência da espada e o derramamento de sangue nunca
fizeram bem a pessoa alguma...
Artigo 4.
Aqui deverão os Mestres se desvelar para mostrarem ao Imperador
palpavelmente o acordo e harmonia da Religião com a Política,
e de ambas com todas as ciências; porquanto, se a física
estabelece a famosa lei da resistência na impenetrabilidade dos
corpos, é verdade também que a moral funda ao mesmo tempo
a tolerância e o mútuo perdão das injúrias,
defeitos e erros; essa tolerância ou mútuo perdão,
sobre revelar a perfeição do Cristianismo, revela também
os quilates das almas boas nas relações de civilidade
entre todos os povos, seja qual for sua religião e a forma do
seu governo...
Artigo 5.
Lembrem-se pois os Mestres que o Imperador é homem; e partindo
sempre dessa idéia fixa, tratem de lhe dar conhecimentos exatos
e reais das coisas, sem gastarem o tempo com palavras e palavrões
que ostentam uma erudição estéril e prejudicial,
pois de outra forma virá o seu discípulo a cair no vicio
que o Nosso Divino Redentor tanto combateu no Evangelho, quando clamava
contra os doutores que invertiam e desfiguravam a lei, enganando as
viúvas e aos homens ignorantes com discursos compridos e longas
orações, e se impondo de sábios, embora sendo
apenas uns pedantes faladores.
Artigo 6.
Em conseqüência os Mestres não façam o Imperador
decorar um montão de palavras ou um dicionário de vocábulos
sem significação, porque a educação literária
não consiste decerto nas regras da gramática nem na arte
de saber por meio das letras; em conseqüência os Mestres
devem limitar-se a fazer com que o Imperador conheça perfeitamente
cada objeto de qualquer idéia enunciada na pronunciação
de cada vocábulo...
Artigo 7.
Julgo portanto inútil dizer que as preliminares de qualquer
ciência devem conter-se em muito poucas regras, assim como os
axiomas e doutrinas gerais. Os Mestres não gastem o tempo com
teses nem mortifiquem a memória do seu discípulo com
sentenças abstratas; mas descendo logo às hipóteses,
classifiquem as coisas e idéias, de maneira que o Imperador,
sem abraçar nunca a nuvem por Juno, compreenda bem que o pão é pão
e o queijo é queijo.
Assim, por exemplo, tratando das virtudes e vícios, o Mestre
de Ciências Morais deverá classificar todas as ações
filhas da soberba distinguindo-as sempre de todas as ações
opostas que são filhas da humildade. E não basta ensinar
ao Imperador que ohomem não deve ser soberbo, mas é preciso
indicar-lhe cada ação, onda exista a soberba, pois se
assim não o fizer, bem pode acontecer que o Monarca venha para
o futuro a praticar muitos atos de arrogância e altivez, supondo
mesmo que tenha feito ações meritórias e dignas
de louvor, e isto por não ter, em tempo, sabido conhecer a diferença
entre a soberba e a humildade.
Artigo 8.
Da mesma sorte, tratando-se das potências e das forças
delas, o Mestre de ciências físicas fará uma resenha
de todos os corpos computando os grãos de força que tem
cada um deles, para que venha o Imperador a compreender que o poder
monárquico se limita ao estudo e observância das leis
da Natureza... e que o Monarca é sempre homem e um homem tão
sujeito, que nada pode contra as leis da Natureza feitas por Deus em
todos os corpos, e em todos os espíritos.
Artigo 9.
Em seguimento ensinarão os Mestres ao Imperador que todos os
deveres do Monarca se reduzem a sempre animar a Indústria, a
Agricultura, o Comércio e as Artes; e que tudo isto só se
pode conseguir estudando o mesmo Imperador, de dia e de noite, as ciências
todas, das quais o primeiro e principal objeto é sempre o corpo
e a alma do homem; vindo portanto a achar-se a Política e a
Religião no amor dos homens. E o amor dos homens é que é o
fim de todas as ciências; pois sem elas, em vez de promoverem
a existência feliz da humanidade, ao contrário promovem
a morte.
Artigo 10.
Entendam-me porém os Mestres do Imperador. Eu quero que o meu
Augusto Pupilo seja um sábio consumado e profundamente versado
em todas as ciências e artes e até mesmo nos ofícios
mecânicos, para que ele saiba amar o trabalho como principio
de todas as virtudes, e saiba igualmente honrar os homens laboriosos
e úteis ao Estado. Mas não quererei decerto que Ele se
faça um literato supersticioso para não gastar o tempo
em discussões teológicas como o Imperador Justiniano;
nem que seja um político frenético para não prodigalizar
o dinheiro e o sangue dos brasileiros em conquistas e guerras e construção
de edifícios de luxo, como fazia Luís XIV na França,
todo absorvido nas idéias de grandeza; pois bem pode ser um
grande Monarca o Senhor D. Pedro II sendo justo, sábio, honrado
e virtuoso e amante da felicidade de seus súditos, sem ter precisão
alguma de vexar os povos com tiranias e violentas extorsões
de dinheiro e sangue.
Artigo 11.
Sobretudo, recomendo muito aos Mestres do Imperador, hajam de observar
quanto Ele é talentoso e dócil de gênio e de
muita boa índole. Assim não custa nada encaminhar-lhe
o entendimento sempre para o bem e verdade, uma vez que os Mestres
em suas classes respectivas tenham com efeito idéias exatas
da verdade e do bem, para que as possam transmitir e inspirar ao
seu Augusto Discípulo.
Eu não cessarei de repetir aos Mestres que não olhem
para os livros das Escolas, mas tão somente para o livro da
Natureza, corpo e alma do homem; porque fora disto só pode haver
ciência de papagaio ou de menino de escola, mas não verdade
nem conhecimento exato das coisas, dos homens, e de Deus.
Artigo 12.
Finalmente, não deixarão os Mestres do Imperador de lhe
repetir todos os dias que um Monarca, toda a vez que não cuida
seriamente dos deveres do trono, vem sempre a ser vitima dos erros,
caprichos e iniqüidades dos seus ministros, cujos erros, caprichos
e iniqüidades são sempre a origem das revoluções
e guerras civis; e então paga o justo pelos pecadores, e o Monarca é que
padece, enquanto que seus ministros sempre ficam rindo-se e cheios
de dinheiro e de toda sorte de comodidades. Por isso cumpre absolutamente
ao Monarca ler com atenção todos os jornais e periódicos
da Corte e das Províncias e, além disto, receber com
atenção todas as queixas e representações
que qualquer pessoa lhe fizer contra os ministros de Estado, pois só tendo
conhecimento da vida pública e privada de cada um dos seus ministros
e Agentes é que cuidará da Nação. Eu cuido
que não é necessário desenvolver mais amplamente
estas Instruções na certeza de que cada um dos Mestres
do Imperador lhe adicionará tudo quanto lhe ditarem as circunstâncias à proporção
das doutrinas que no momento ensinarem. E confio grandemente na sabedoria
e prudência do Muito Respeitável Senhor Padre Mestre Frei
Pedro de Santa Mariana, que devendo ele presidir sempre a todos os
atos letivos de Imperador como seu Aio e Primeiro Preceptor, seja o
encarregado de pôr em prática estas Instruções,
uniformizando o sistema da educação do Senhor Dom Pedro
II, de acordo com todos os outros Mestres do Mesmo Augusto Senhor".
Paço da Boa Vista no Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1838
Marquês de Itanhaém - Tutor da Família Imperial
Gastão Reis
Empresário e economista
E-mail: gastaoreis@smart30.com.br
Meu site: www.smart30.com.br
Tels.: 0xx 24 9272-8586 ou 2222-2828